Serra corta mais de 20% das verbas contra enchentes
Só no Estado de São Paulo os problemas provocados pelas chuvas já mataram 43 pessoas de 1º de dezembro até 8 de janeiro/2010
Só no Estado de São Paulo os problemas provocados pelas chuvas já mataram 43 pessoas de 1º de dezembro até 8 de janeiro/2010 e outras 27 ficaram feridas. A informação é da Defesa Civil estadual. O balanço mostra que os temporais prejudicaram quase 19 mil moradores do Estado. São 3.184 desabrigados e 15.786 desalojados.
A seguir, matéria publicada no site Brasília Confidencial em 4/1/2010
Apesar da sucessão de tragédias que vem ocorrendo no estado e na capital de São Paulo desde o início de dezembro, em consequência de temporais, o governador José Serra cortou em 20,4% os recursos para combater as enchentes em 2010, segundo análise do economista Eduardo Marques, do Transparência São Paulo. A previsão de Serra é cortar R$ 52 milhões.
Desde o início de dezembro, mais de 60 municípios foram atingidos. Vários bairros da capital paulista sofrem com os alagamentos desde o dia 8 de dezembro.
De acordo com Marques, além de prever menos recursos para 2010 em relação a 2009, o tucano impediu que a Assembléia Legislativa corrigisse estes problemas por meio de emendas ao orçamento. Em números, o governo paulista previu R$ 252,2 milhões em 2009 para combater enchentes, mas destinará apenas R$ 200,6 milhões em 2010.
Os principais cortes de recursos estão nas ações de limpeza e conservação de corpos d´água (desassoreamento dos rios e canais), na manutenção, operação e implantação de estruturas hidráulicas e nas obras complementares na bacia do Alto Tietê. Foram retirados do canal do rio Tietê em 2009 cerca de 400 mil m3 de sedimentos, segundo o governo do estado. No entanto, especialistas têm avaliado que seria necessária a retirada de pelo menos um milhão de m3 de sedimentos por ano.
Outros números do orçamento público revelam que em 2009, o Estado pretendia retirar 2,5 milhões de m3 de sedimentos com R$ 4,4 milhões. Em 2010, o Estado pretende retirar quase a mesma quantidade de sedimentos com apenas R$ 1,5 milhões. Além disso, não há registros sobre serviços de desassoreamento em 2006, 2007 e 2008.
“Sem dúvida nenhuma, estes valores apontam para as verdadeiras causas das últimas enchentes na marginal do Tietê, bem como do agravamento das inundações de bairros inteiros na cidade de São Paulo”, avalia o economista.
Especialistas reagem às declarações de Serra sobre enchentes
Matéria publicada no site Brasília Confidencial em 7/1/2010
“O governador precisa conhecer melhor o Estado que governa e saber que o combate às enchentes é de sua competência e não dos municípios”. Esta foi a forma como a professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, Ermínia Maricato, reagiu à fala de José Serra, que responsabilizou os municípios da Grande São Paulo por estarem impermeabilizando as várzeas do rio Tietê. Ela, que já foi secretária executiva do Ministério das Cidades e faz parte do grupo de urbanistas que assinou manifesto contra as obras realizadas pelo governo do estado nas marginais do Tietê, disse que em vez de responsabilizar os municípios pelas enchentes, o governador deveria retirar a Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano S/A , Emplasa, do ostracismo: “A empresa é responsável pela elaboração do planejamento urbano da Grande São Paulo, programando, coordenando e executando os serviços na região metropolitana.
Já o secretário de Política Urbana de Suzano (cidade situada na Grande São Paulo às margens do rio Tietê), Miguel Reis Afonso, disse que nenhum município tem capacidade jurídica para aprovação de projetos em áreas de proteção ambiental. “Ao atribuir às prefeituras a liberação de obras que impermeabilizam a várzea do Tietê, o governador foge de suas responsabilidades, como faz ao dizer que a ampliação da Marginal Tietê terá impacto zero nas enchentes”, analisa.
O secretário de Suzano, que é administrada pelo PT, considera bem-vinda toda a iniciativa que tenha como objetivo preservar a várzea do rio Tietê e procura mostrar que o município tem dado sua contribuição: “Não por acaso, o prefeito e presidente do Subcomitê da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê –Cabeceiras (SCBH-ATC), Marcelo Candido, propôs a criação do Protocolo em Defesa da Recuperação Socioambiental do rio, ação regional que está em andamento. A prefeitura de Suzano elabora atualmente os planos de Saneamento Ambiental e de Macrodrenagem, que trarão impactos positivos no principal rio da região”.
A seguir, reportagem do site Rede Brasil Atual em 7/1/2010
Para Ab'Saber, inundação de Paraitinga é parte de ano anômalo
Atribuir os problemas simplesmente ao aquecimento global é “terrorismo da ignorância” disse o geógrafo à Rede Brasil Atual, demonstrando abatimento pelos acontecimentos em sua cidade natal
Um ano anômalo. Mas que se repete a cada doze ou treze anos. Essa é a definição do geógrafo Aziz Ab'Saber para os fenômenos registrados neste início de 2010, especialmente nas regiões Sul e Sudeste do Brasil. Para o professor da Universidade de São Paulo (USP), esse fator está à frente do aquecimento global, do desmatamento e da ocupação desordenada para explicar o ocorrido em sua cidade natal, São Luiz do Paraitinga, no interior paulista.
Não bastasse conhecer o local, Ab'Saber é um dos maiores geógrafos brasileiros e foi o primeiro a realizar um levantamento completo do relevo nacional. Em artigo publicado na última edição da Revista do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, o professor previu alguns dos fatos vistos neste janeiro. Intitulado “A propósito da periodicidade climato-hidrológica que vem provocando grandes crises em Santa Catarina”, o texto conta como o fenômeno “anômalo” se repete periodicamente no espaço que vai do Espírito Santo até o litoral catarinense.
Nos desastres de 2009, houve a influência do El Niño, que aquece as águas do Pacífico: “O certo é que, em um ano de maior aquecimento, provocam maior evaporação das águas costeiras, criando alguns 'mares de nuvens' e atração de 'bigornas', com temporais agressivos, ocasionando transbordes fluviais”, assinala o texto.
Mesmo muito abatido e dormindo pouco desde que tomou conhecimento dos fatos em sua cidade, Aziz Ab'Saber concedeu uma aula telefônica de geografia. Durante trinta minutos, explicou a questão da periodicidade e como isso se soma aos outros fatores para provocar o que se viu em Paraitinga. Aos 86 anos, ele contou que deixou a casa na Grande São Paulo na tentativa de amenizar o forte estresse ao qual foi submetido e não está seguro de que terá condições de participar das reuniões para discutir a reconstrução da cidade.
Confira a seguir a explicação de Ab'Saber à Rede Brasil Atual para as causas da chuva que inundou São Luiz. Na parte sobre a distribuição do sítio urbano foram cortadas as explicações técnicas para facilitar o entendimento do leitor. Mas vale acrescentar que São Luiz está rodeada por um meandro do Rio Paraitinga que o professor chama de “lóbulo interno do meandro”, um ponto em que a própria força da água cavou o curso do rio (a explicação fica mais clara visualizando este mapa). A parte mais antiga da cidade está construída sobre uma área baixa do chamado Mar de Morros que permeia o Vale do Paraíba.
Ano anômalo
“Este ano foi de perturbações fortíssimas em toda a América Tropical. Concluo que houve crises regionais no Brasil Tropical-Atlântico desde Espírito Santo e Rio de Janeiro até o Nordeste de Santa Catarina, onde ainda predomina um clima tropical. Essas perturbações ocorrem de doze em doze anos ou de treze em treze anos. Em Santa Catarina, foi possível ver uma periodicidade que vai desde 1924 até novembro de 2008. Essa periodicidade é desconhecida em relação a São Luiz. Mas, quando eu era menino, me lembro de ter ouvido gente falando que a cheia que ocorreu chegou até a porta do mercado”
Nota: Ab'Saber deixou São Luiz aos seis anos, em 1929. A partir dos relatos dele, presume-se que a enchente provavelmente ocorreu entre 1926 e 1928. Se adotada a periodicidade de 12 ou de 13 anos, chega-se ao intervalo entre 2008 e 2011. Vale lembrar que, em 1996, outra forte inundação atingiu a cidade, mas sem os danos gerados pela atual.
“O assunto é complexo. Do lado de São Luiz, o problema dependeu da periodicidade que afetou a América do Sul inteira. Primeiro, grandes chuvas em Santa Catarina. Depois, Rio de Janeiro e Espírito Santo, volta para São Paulo. E, agora, as grandes chuvadas do Alto Vale do Paraíba, que podemos chamar de Planalto Atlântico Paulista”.
Aquecimento global:
“Precisa ser bem esclarecido o assunto porque, se não, os que não entendem nada de periodicidade nem de climatologia dinâmica vão dizer que é o aquecimento global que está destruindo tudo. Quanto a isso, posso falar que realmente existe um aquecimento forte em áreas diferentes do mundo intertropical. E, no Brasil, esse aquecimento força mais evaporação na região costeira. A gente vê, desde manhã até a tarde, as nuvens indo para o interior, chegando até o topo da Serra do Mar. Por isso, quanto mais umidade, a Mata Atlântica fica mais protegida. Mas, em compensação, o clima a nível local fica com uma neblina muito forte”.
Sítio urbano e ocupação do solo:
“O sítio urbano é de um meandro encrustado em um mar de morros, uma expressão que designa a área que vai de Cunha até Guararema. São Luiz está embutida em um meandro alongado do Rio Paraitinga. Um meandro que volteia a área onde está a cidade”
“A cidade foi crescendo das partes um pouquinho mais elevadas do que a várzea do lóbulo interno e, depois, os mais pobres foram subindo os morros. Lembro que meu pai mandou iluminar um cruzeiro que havia no alto do morro. De noite, a gente observava lá no alto uma cruz com luzes. Hoje, aquelas regiões do alto da cruz foram ultrapassadas pelo povoamento dos morros. Em função das chuvas grandes é que escorreram árvores e enroscaram em muitas coisas”.
Educação e prevenção
“É hora de obrigar essas cidades a terem ensino sobre a história da cidade, o sítio urbano da cidade, a periodicidade climática perigosa. A conclusão que coloquei nos meus estudos é que, se acontecer a periodicidade que tenho previsto, é evidente que daqui doze ou treze anos vai acontecer alguma tragédia. O problema é saber de antemão para prever os impactos desses ciclos de tempo anômalo. Esse é um ano anômalo. Basear-se nesse ano para dizer que vai continuar todo ano ocorrendo a mesma coisa é perigosíssimo. É um terrorismo em função da ignorância”
Ou seja, como anotou Ab'Saber em seu artigo sobre Santa Catarina, há uma década de trabalho pela frente. “Esperamos que governantes federais e estaduais realizem obras e reparos em Santa Catarina, até aproximadamente o ano de 2018/2019. Antes que aconteçam novas anomalias climato-hidrológicas do tipo que aconteceu no norte oriental de Santa Catarina”.